O Fim do Humano?
Do corpo dado ao corpo editável
O impulso mais comum diante das imagens recentes da Semana de Moda de Paris 2026 é descartá-las como exagero, ruído ou provocação gratuita, uma espécie de teatro autocentrado que perdeu qualquer vínculo com a vida real. Essa leitura é confortável, mas superficial. Ela ignora a função histórica da alta moda como um espaço de experimentação simbólica onde não se testam roupas, e sim formas de ver o corpo, a identidade e, em última instância, o próprio humano. A passarela, nesse sentido, não antecipa tendências de consumo, mas tensiona os limites do imaginável, deslocando gradualmente aquilo que uma sociedade reconhece como familiar.
Ao longo da história, momentos de estabilidade cultural produziram representações do corpo marcadas por proporção, clareza e reconhecimento imediato. A figura humana aparecia como referência estável, quase como um ponto de ancoragem simbólica. Em períodos de transição, essa estabilidade começa a se desfazer. A forma humana deixa de ser evidente e passa a sofrer interferências que não são meramente estéticas, mas estruturais: distorções, fragmentações, misturas com elementos não humanos, apagamento de fronteiras. Não se trata de um capricho criativo isolado, mas de um sintoma recorrente de culturas que atravessam processos de reorganização interna.
Esse deslocamento já havia sido percebido por pensadores como Friedrich Nietzsche, que associava a dissolução de valores tradicionais a uma crise mais profunda de identidade, capaz de reverberar diretamente na forma como o humano se representa. A arte moderna respondeu a esse tipo de ruptura fragmentando o corpo, distorcendo a realidade e abandonando a ideia de unidade. O que hoje reaparece nas passarelas não inaugura um fenômeno, mas o atualiza em outro contexto, marcado por transformações tecnológicas e culturais que recolocam em questão os limites do corpo e da identidade.
A noção de grotesco oferece uma chave de leitura ainda mais precisa para esse cenário. O filósofo Mikhail Bakhtin descreveu o corpo grotesco como um corpo aberto, em constante transformação, que rejeita a ideia de forma fechada e estável. Trata-se de um corpo que se mistura, que transborda, que não respeita fronteiras claras. Essa definição, longe de pertencer apenas à teoria literária, encontra eco direto nas imagens contemporâneas que circulam na moda de passarela, onde figuras híbridas, silhuetas irreconhecíveis e composições que desafiam a anatomia tradicional deixam de ser exceção e passam a ocupar o centro da cena.
Há, no entanto, um mecanismo mais silencioso que sustenta a eficácia dessas imagens. A psicologia social demonstrou que a repetição reduz a resistência ao estranho. Os estudos de Robert Zajonc sobre o efeito de exposição mostram que aquilo que inicialmente causa rejeição tende a se tornar progressivamente mais aceitável à medida que é reiterado. A passarela opera nesse intervalo delicado entre o choque e a familiarização, apresentando formas que ainda não foram assimiladas para, pouco a pouco, enfraquecer a barreira que as separa do repertório cultural comum. O que hoje parece excessivo ou deslocado pode, nesse processo, perder sua carga de estranhamento e abrir caminho para novas formas de identificação.

Essa dinâmica se torna ainda mais clara quando observada à luz da teoria da mídia de Marshall McLuhan, que entendia a arte como um sistema capaz de perceber mudanças antes que elas se consolidem no cotidiano. A arte, nesse sentido, não explica transformações; ela as manifesta em estado bruto, muitas vezes de forma desconfortável. Designers e criadores não operam necessariamente como agentes conscientes de uma agenda, mas como intérpretes de um ambiente cultural em mutação, captando sinais difusos e traduzindo-os em linguagem visual. A passarela não formula argumentos; ela constrói imagens que condensam tensões ainda não resolvidas.
O que se observa na estética recente é um deslocamento consistente em direção a formas que desafiam a ideia tradicional de humano. Corpos que parecem artificiais, identidades que escapam de definições rígidas, composições que misturam orgânico e sintético, tudo isso surge no mesmo momento em que o debate público passa a lidar com avanços em inteligência artificial, biotecnologia e intervenções cada vez mais profundas no corpo. A moda não reage a essas discussões de maneira ilustrativa; ela participa do mesmo campo simbólico, operando em paralelo e muitas vezes antecipando, em forma de imagem, questões que ainda estão sendo formuladas em linguagem técnica ou política.
Reduzir essas manifestações a um suposto descolamento da realidade é ignorar que a própria noção de realidade está em transformação. A função da alta moda nunca foi a de refletir o cotidiano de forma literal, mas a de tensioná-lo, criando zonas de instabilidade onde novas possibilidades podem ser ensaiadas. Quando essas zonas se tornam frequentes e visíveis, isso indica que o sistema simbólico que sustentava determinadas definições começa a perder consistência.
Nesse contexto, a presença recorrente de formas híbridas, distorcidas ou não humanas não pode ser lida apenas como estética. Ela aponta para um processo mais profundo em que a cultura tenta reorganizar suas referências fundamentais. O corpo deixa de ser um dado evidente e passa a ser um campo de disputa, aberto a interpretações, intervenções e reconfigurações. A passarela não determina o resultado desse processo, mas torna visível que ele já está em curso.
O desconforto gerado por essas imagens não é um efeito colateral indesejado, mas parte central de sua função. Ele revela a distância entre aquilo que ainda é reconhecido como humano e aquilo que começa a emergir como possibilidade. Ignorar esse desconforto impede a compreensão do fenômeno; enfrentá-lo permite perceber que, por trás da aparência de exagero, existe um movimento consistente de transformação simbólica. Mostrando que quando a forma humana deixa de ser estável nas representações culturais, a questão deixa de ser estética para se tornar estrutural.
É nesse ponto que o discurso contemporâneo do Transhumanismo deixa de parecer apenas uma especulação tecnológica e passa a se revelar como um projeto cultural em disputa. A promessa de superação dos limites biológicos é frequentemente apresentada como avanço inevitável, quase como uma evolução natural da espécie. No entanto, ao deslocar o corpo de sua condição de referência para tratá-lo como matéria ajustável, esse discurso introduz uma ruptura silenciosa: o humano deixa de ser um dado e passa a ser uma variável.
A estética que hoje circula nas passarelas não afirma esse projeto de forma direta, mas o torna imaginável. Ao naturalizar formas que já não se organizam em torno de uma anatomia reconhecível, ela enfraquece a ideia de limite e, com isso, prepara o terreno para intervenções cada vez mais profundas. O problema não está na inovação técnica em si, mas na ausência de um critério claro que delimite até onde essa transformação pode ir sem dissolver aquilo que torna o humano inteligível como tal.
Uma cultura que perde a capacidade de reconhecer a própria forma corre o risco de aceitar qualquer forma como substituta. Nesse cenário, o avanço tecnológico deixa de ser apenas ferramenta e passa a operar como vetor de redefinição ontológica. A questão que se impõe não é se o corpo pode ser modificado, mas o que se perde quando ele deixa de funcionar como referência estável. Ao transformar o humano em projeto aberto, o transhumanismo não apenas expande possibilidades, ele também fragiliza o próprio conceito que pretende superar.


Inacreditável onde o ser humano chegou! Sem acreditar 😶