Pode Chorar

A instituição começa a cair antes da placa

Era terça-feira de manhã. Depois do café, resolvi ligar a televisão para assistir à TV Justiça. Um julgamento muito peculiar estava para começar. Ao me deparar com o cenário, alguns elementos ainda eram fáceis de reconhecer.

As togas, por exemplo. Criadas para apagar, ao menos visualmente, as diferenças entre aqueles que as vestem e lembrar que, dentro daquele espaço, todos os ministros deveriam estar submetidos à mesma instituição.

A bancada do plenário, revestida pela estrutura em tom quente do jacarandá-da-baía, combinava com o couro mostarda das poltronas dos ministros, numa composição pensada para refletir a identidade visual do país ao qual aquela Corte serve.

Tudo parecia cuidadosamente calculado. A arquitetura, a disposição das cadeiras, os símbolos. Uma construção inteira destinada a lembrar a quem assiste que ali dentro as palavras deveriam pesar mais do que as pessoas.

Imagem: STF

E, no começo, ainda havia palavras conhecidas.

Excelência. Ou, para ser mais precisa, Vossa Excelência. Com a devida vênia. Esta Corte. A Constituição. O processo. A investigação.

Depois de algum tempo, percebi que alguma coisa havia mudado. Palavras que não costumavam fazer parte daquele glossário começaram a emergir.

Primeiro, “leviano”. Depois, “desfaçatez”. Depois, “aprendiz de feiticeiro”. Fiquei olhando para a televisão. Sem perceber exatamente o que estava sendo desenhado diante dos meus olhos.

Talvez fosse apenas impressão minha, mas parecia que a linguagem estava descendo alguns degraus. Já não era a linguagem de uma Corte. Era a linguagem de uma briga.

André Mendonça tentava falar. Foi interrompido. Tentou novamente. Foi acusado. Respondeu. Pediu respeito. E então veio a frase que, para mim, resumiu aquela tarde:

— Pode chorar.

Olhei para a tela, incrédula, e pensei que aquela talvez fosse a frase mais importante de toda a sessão. Não pelo que dizia. Mas pelo que deixava ecoar pelo plenário e através das milhares de telas simultâneas que assistiam ao lamentável espetáculo.

Durante muito tempo, aprendemos que certas palavras pertenciam a determinados lugares.

“Excelência” pertencia ao tribunal. “Respeito” pertencia à instituição. “Decoro” pertencia ao cargo. “Justiça” pertencia à toga.

E “pode chorar” pertencia a uma discussão de escola. Para ser exata, não mais do que quinta série. Naquele momento, parecia que as palavras haviam trocado de lugar. E, neste caso específico, trocar de lugar não é por acaso. É um sintoma. Sintoma de que alguma coisa mudou.

Mendonça respondeu que ali não havia choro. Havia uma tentativa de seguir o rito. Era quase uma cena de teatro. Ou era puro teatro? Só que ninguém havia escrito um roteiro. Ou talvez alguém também tivesse escrito. Sei lá.

O mais curioso, no decorrer daquela tarde, não era assistir a ministros discutindo. Era perceber que o Supremo já não precisava de seus críticos para parecer menor. Muito menor.

Ele próprio estava fornecendo as cenas de seu encolhimento em tempo real. A instituição que deveria interpretar a Constituição discutia aos gritos, preferindo ataques pessoais. Já não pareciam mais tão iguais.

A Corte que deveria representar a última palavra do Direito precisava interromper a própria sessão. O tribunal que deveria demonstrar equilíbrio expunha um desequilíbrio difícil de ignorar. E, no meio disso tudo, um ministro dizia ao outro para chorar. Não era apenas uma perda de compostura. Era uma perda de linguagem.

E, ainda que houvesse esforço para continuar representando diante das câmeras, as máscaras teimavam em cair. E o que nós, a audiência, víamos era uma instituição que começava a desmoronar sem que nada a segurasse. Ninguém derrubou sua placa. Ninguém cerrou suas portas. Ninguém retirou suas imponentes cadeiras de madeira maciça.

Ela começa a cair no momento em que as palavras que sustentavam sua autoridade deixam de combinar com aquilo que acontece dentro dela. A essa altura, “Excelência” já não produz respeito, “decoro” parece uma palavra antiga, “Supremo” passa a soar apenas como o nome de um lugar. E, em vez da argumentação, sobra apenas uma decana provocação.

Pode chorar.

Eu desliguei a televisão. Não porque tinha terminado aquele julgamento. Até porque ele nem havia começado de fato. Esse é o problema. Já não sei a que julgamento estávamos assistindo.

Se era o julgamento de Alexandre. De André. De Edson. Ou o julgamento final de uma instituição que nós já nem sabemos mais como chamar.

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