O Caso do Aperto de Mãos

Um símbolo milenar diante do medo.

Todo caso começa com uma pista. Neste caso, a pista está em uma palavra aparentemente simples: costume.

Em abril de 2020, enquanto o mundo atravessava uma das maiores crises sanitárias da história recente, Anthony Fauci, então diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, fez uma declaração que chamou atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelo que ela representava.

Como sociedade, simplesmente esqueçamos o aperto de mãos. Não precisamos apertar as mãos. Precisamos quebrar esse costume.” — Anthony Fauci, abril de 2020

Anthony Fauci durante a coletiva da força-tarefa sobre o coronavírus na Casa Branca, em 8 de abril de 2020 — o mesmo período em que defendeu que a sociedade deveria abandonar o aperto de mãos como hábito permanente.
Foto: Kevin Lamarque/Reuters.

A frase continha algo maior do que uma recomendação de saúde pública. Ela falava sobre abandonar um costume. E costumes raramente são apenas costumes. Eles são arquivos vivos de uma sociedade. O aperto de mãos parece um gesto banal, algo automático, um movimento que fazemos sem pensar. Mas poucos símbolos atravessaram tanto tempo carregando tantos significados.

Durante os meses mais intensos da pandemia, governos ao redor do mundo recomendaram que as pessoas evitassem apertos de mãos. Aquilo que durante séculos representou proximidade, confiança e acolhimento passou a ser associado ao risco de uma ameaça invisível.

Pela primeira vez em muitas gerações, um gesto milenar foi colocado em pausa. O curioso é perceber que o aperto de mãos nunca foi só um cumprimento. Sempre foi um símbolo, um dos mais antigos da humanidade.

Antes de existirem contratos, assinaturas ou documentos oficiais, a mão estendida já comunicava uma mensagem: não há uma arma escondida aqui. Era um gesto de paz.

Ao longo da História, o gesto atravessou civilizações e permaneceu presente em momentos decisivos da vida humana. Em vasos, lápides e lajes de pedra do mundo antigo, encontramos representações de apertos de mãos em cenas de casamento, acordos entre divindades, jovens guerreiros partindo para a guerra e até a chegada dos recém-mortos à vida após a morte.

Na literatura clássica, o gesto aparece em obras como a Ilíada e a Odisseia. A mão estendida acompanhou alianças, despedidas, reconciliações e encontros. Ela dizia: estou diante de você. Estou disposto a estabelecer uma relação. Estou reconhecendo a sua presença.

Relevo de pedra do século 9 a.C. retratando o rei Salmanaser III da Assíria apertando a mão de um babilônio.

Talvez exista ainda uma camada mais profunda nesse gesto. Em um estudo realizado em 2015, pesquisadores em Israel observaram centenas de apertos de mãos entre desconhecidos e identificaram um comportamento curioso: parte dos participantes levou a própria mão ao nariz logo após o cumprimento.

A hipótese levantada pelos pesquisadores era que o aperto de mãos poderia envolver uma forma inconsciente de comunicação química — uma espécie de troca de informações por meio de sinais corporais, semelhante a mecanismos observados em outros animais.

O gesto que parecia apenas social talvez carregasse também elementos mais antigos da interação humana. Mas então veio 2020 e algo extraordinário aconteceu. O gesto permaneceu o mesmo. A mão continuava sendo uma mão. O movimento continuava sendo o mesmo. Mas o significado atribuído a ele mudou.

Um símbolo associado durante séculos à confiança passou a representar perigo. A aproximação passou a ser vista como ameaça. O contato passou a ser interpretado como descuido. Essa é uma das características mais poderosas das narrativas: elas não mudam apenas opiniões. Elas podem mudar o significado das coisas.

A semiótica nos mostra que os símbolos não possuem um sentido fixo e imutável. Eles são interpretados dentro de um contexto cultural. A mesma mão que, em uma cerimônia de paz, representa reconciliação, foi interpretada como risco em uma crise sanitária. A forma permaneceu, o significado foi transformado.

Durante a pandemia de Covid-19, pessoas ao redor do mundo substituíram apertos de mãos por cumprimentos com os cotovelos, pés ou apenas acenos à distância.

A frase de Fauci permanece simbólica. Ela não falava apenas sobre evitar um contato físico temporariamente. Ela falava em “quebrar esse costume”. E quebrar um costume significa muito mais do que alterar uma rotina. Significa tocar em algo que faz parte da memória coletiva de toda uma sociedade.

Alguns costumes desaparecem porque deixam de fazer sentido. Outros desaparecem porque novas gerações deixam de atribuir a eles o mesmo valor. Mas existe algo singular quando um costume milenar é questionado em poucos meses de modo quase impositivo.

Em um período marcado por polarização intensa e isolamento extremo, não era apenas o aperto de mãos que estava em discussão. Era a própria ideia de proximidade.

O que significa confiar em alguém? O que significa se aproximar? O que significa um gesto que, durante milhares de anos, comunicou exatamente o oposto do medo?

Depois de um período em que a proximidade foi vista como ameaça, o velho gesto de confiança voltou a ocupar seu lugar.

Anos depois, o aperto de mãos voltou ao cotidiano. Ele sobreviveu. Mas a frase permaneceu como um registro de uma época em que até os símbolos mais antigos pareciam negociáveis. Talvez esse seja o verdadeiro caso a ser investigado. Não apenas o destino de um gesto, mas a velocidade com que uma sociedade pode ressignificar aquilo que parecia permanente.

Símbolos não desaparecem apenas quando deixam de existir. Muitas vezes, eles desaparecem primeiro quando deixam de significar aquilo que sempre significaram. A maioria vê apenas uma mão sendo estendida. Poucos percebem toda a história que existe por trás dela.

Agora, olhando para trás: você se lembra do momento em que apertar as mãos deixou de parecer um gesto natural?

Um comentário sobre “O Caso do Aperto de Mãos

  • Uau, que explicação incrível! Tomara que os bons costumes permaneçam!

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